
O mercado e um "passeio"
pelo mundo de Wi-Fi
• Eduardo Prado - Smart Convergence
Segundo o periódico de investidores em tecnologia The Chilli, o mercado de Wireless (WLAN) pode ser segmentado em três grandes áreas:
corporativa, residencial e pública.
O mercado de WLAN Corporativa é visto como o primeiro mercado alvo para os vendors de produtos e chips. Grandes corporações vão demandar laptops e PDAs quando seus profissionais (força de trabalho móvel) estiverem fora dos seus escritórios, nas ruas, nos cafés, nos restaurantes e hotéis enviando e-mails ou consultando sistemas legados (p. ex., CRM e ERP). O instituto analista de indústria
In-Stat/MDR estima que em 2004 cerca de 70% dos laptops a serem comercializados já virão ao mercado com algum suporte de WLAN.
O padrão IEEE 802.11a (ver 802.11) promete um aumento de banda (de 83,5 MHz do 802.11b para 300 MHz) sem a interferência típica dos padrões a e g na freqüência de 2,4 GHz. A oferta de produtos multimodais a/b/g permitirá que os profissionais corporativos utilizem a infra-estrutura de WLAN Pública, independemente se ela é baseada nos padrões 802.11b ou 802.11g. A
Dell, Hewlett Packard e
Apple suportarão os padrões 802.11b e 802.11g, enquanto a IBM, que trabalhará com os padrões a e b, comprometeu-se publicamente a adotar o g quando a definição do mesmo for oficializada pelo IEEE. Os vendors de pontos de acesso Cisco, Nortel, Proxim e Symbol estarão suportando os três padrões - por razões óbvias ! - 802.11a, b e g.
Existem alguns fatores inibidores de WLAN no Mercado Corporativo:
[1] comparado ao 802.11b, o a tem mais largura de banda e sofre menos interferência (de microondas e raios x na freqüência de 2,4 GHz) mas alcança uma distância menor. Isto significa que os pontos de acesso do 802.11a, na implantação, devem ter uma concentração mais densa, o que aumenta os custos de instalação;
[2] retração nos gastos de Tecnologia da Informação das corporações com a retração dos orçamentos e a
tentativa de aumentar a capacidade operacional do parque existente de equipamentos; e finalmente
[3] segurança, item que ainda "amedronta" as corporações apesar dos últimos progressos nesta área.
Ver The New Face of Authentication. Como exemplos de WLAN Corporativa - segundo a matéria Wi-Fi Means Business
da Business Week - temos os casos da United Parcel Services (UPS) que está equipando seus centros de distribuição de carga em todo o mundo com redes sem fio a um custo de MUS$ 120. A empresa afirma que os
carregadores e empacotadores "varrem" as encomendas, coletando informações que alimentam a rede da UPS, assegurando um aumento de produtividade de 35% e, o caso da General Motors (GM), que está implantando redes WLANs em 90 das suas instalações em todo o mundo. Uma outra área que tem muitas oportunidades em Wi-Fi é a área de saúde.
Ainda segundo a Business Week, no CareGroup Inc de Massachusetts, engenheiros instalaram sistemas wireless para conectar mais de dois mil médicos e enfermeiras ao sistema corporativo. Essa instalação permite que eles acessem os registros dos pacientes, adicionem informações aos banco de dados, e verifiquem os remédios receitados, independentemente aonde eles estejam, se em salas de emergências ou nas UTIs. Segundo o CIO da Care Groups, o sistema ajuda a reduzir 50% dos erros médicos. Veja mais sobre este Grupo em Creating Electronic Access for Physicians, Providers, and Patients
[arquivo PDF]. Veja também como a tecnologia de Wi-Fi está ajudando o pessoal de saúde em Will Wi-Fi lower nurses' blood pressure?
Um caso também muito importante no Mercado de WLAN Corporativa são as universidades, mas uma análise deste assunto mereceria uma matéria a parte. Por ora mencionaremos apenas dois casos de destaque nesta área:
[1] a Universidade de Carnegie Mellon - a pioneira. Veja Wireless Andrew, Search Carnegie MellonThe Challenges of Being First;
[2] a Universidade de Monterrey no México que é um excelente exemplo latino-americano nesta área. Esta faltando uma universidade brasileira pioneira nesta área!!!
O Mercado de WLAN Residencial é visto inicialmente como um mercado secundário. Enquanto a indústria de tecnologia tem sonhado há anos em estimular o uso de banda nas residências algumas poucas barreiras ainda existem contra a adoção de WLAN no reduto caseiro. No caso dos padrões 802.11b e
g é a potencial interferência conforme citada acima. Isso pode ser resolvido adotando-se o padrão mais caro 802.11a, mas duas ações ainda são necessárias: a melhoria da Qualidade de Serviço (QoS = Quality of Service) porque sem ela ninguém vai querer pagar pelo serviço, como também o Gerenciamento dos Direitos Digitais (DRM = Digital Rights Management) por que os detentores de conteúdo esperam ser remunerados pelas suas
ofertas. Embora o mercado de WLAN Residencial ainda não seja a "vedete", vários
players de peso ainda esmeram-se em disputar o referido mercado em futuro
breve. A Microsoft e a Intel têm o maior interesse nesse nicho.
O mercado ainda possui players com um forte foco nesse segmento tais como: D-Link, Intersil e Linksys (adquirida recentemente pelo "peso-pesado" Cisco que vem buscar receita também no mercado residencial).
No caso de WLAN Residencial uma operadora começou - em 2002 - ofertando serviços para residências agregando valor a sua tradicional oferta de banda larga. Quem? A Telecom Italia? O quê? A oferta Alice - um serviço de WLAN Residencial. A Itália - um dos poucos países da Europa a
ainda não possuir a autorização para a comercialização de WLAN pública - viu
chegar esta semana a liberação para esta comercialização. Bem recentemente, a Bristish Telecom (a tradicional BT do Reino Unido) deu um passo similar ao dos italianos através do serviço Voyager 2000. Veja também Home Networking para acompanhar um pouco a evolução da tecnologia neste importante nicho de futuro.
Já no mercado de WLAN Pública (PWLAN = Public WLAN), os operadores têm instalado infra-estrutura de 802.11b, mas planejam também suportar os padrões b e g. A instalação em massa de pontos de acesso depende do modelo de negócio de cada caso - e não tem muita gente com "bola de cristal" neste ramo. Os potenciais usuários devem considerar a localização dos hotspots, Qualidade de Serviço (QoS), incluindo largura de banda disponível versus a interferência potencial na faixa de freqüência de 2,4 GHZ e a insegurança relacionada ao padrão 802.11 utilizado. Com o padrão IEEE 802.11x - atualmente disponível - os implementadores de WLAN já têm mecanismos - juntamente com implementação de VPNs (Virtual Private Networks) - para
garantir a segurança em redes WLAN. [Note: 802.1X is a security standard adopted by the IEEE; which has received widespread industry support. It uses the EAP); (Extensible Authentication Protocol) and RADIUS; (Remote Authentication Dial-In User Service) to authenticate clients and distribute keys].
No futuro, com a chegada do padrão IEEE 802.11i, os mecanismos de segurança já estarão inclusos (built in) no protocolo de WLAN. Veja a "sopa de letrinhas" dos padrões do IEEE aqui: 802.11 Alphabet Soup. O operador de PWLAN deverá possuir um sistema de faturamento e arrecadação (billing system) para efetuar a cobrança do serviço Wi-Fi considerando diferentes QoS e outros parâmetros. O Sistema de Billing é crucial no serviço de PWLAN. Veja Overcoming Wireless LAN Billing Challenges (arquivo pdf).
No mercado de PWLAN existem movimentos diferentes em função de continentes influenciados pela tecnologia vigente e cultura própria. Na Europa a presença das operadoras de telefonia celular no mercado de PWLAN é muito forte em função da total predominância da tecnologia GSM/GPRS neste continente. A limitação da velocidade do GPRS (56 Kbps) e o baixo valor de CAPEX para ofertar wireless data services utilizando a tecnologia de Wi-Fi têm estimulado a várias operadoras móveis a apostar neste segmento. Como players principais temos
a Telia da Suécia (Nota: a Telia agora faz parte do grupo de operadoras nórdicas denominado TeliaSonera) com seu serviço Home Run - que era o maior da Europa com aproximadamente 600 hotspots - e a BT com seu serviço Openzone. "Correndo por fora", a operadora Swisscom da Suíça através de movimentos de aquisição de WISPs - Megabeam e WLAN AG - quer tornar-se a líder do mercado europeu de WLAN com 900 hotspots. Recentemente a Swisscomm também anunciou uma parceria com a operadora móvel francesa SFR . O serviço de
WLAN da Swisscom chama-se Eurospot. Veja aqui o movimento do mercado "frenético" de WLAN na Europa e também Swisscom gains WiFi marketshare in Europe with purchase of Megabeam, WLAN AG de Alan Reiter.
Um exemplo inusitado na Europa é o caso da Inspired - empresa do grupo Leisure Link do Reino Unido que possui 90 mil "caça-níqueis" (de vídeo e jogos) espalhados em 30 mil localidades naquele país - que em associação com a BT, Ericsson e Intel tem um plano ambicioso para instalar três mil hotspots ainda este ano e, "pasmem" de 15 a 20 mil hotspots até o final de 2004. As localidades para os hotspots serão universidades, estações de trem, pubs, postos de gasolina, casas lotéricas entre outros mas os pubs serão a maioria pois em alinhamento com a cultura do país os empreendedores acreditam que estes estabelecimentos "são utilizados durante o dia para reuniões e a noite para diversão (veja Inspired Broadcast launches Web site: Changing U.K.'s WiFi dynamics from Alan Reiter).
Enquanto na Europa o foco tem sido muito forte no mercado varejista, nos EUA um novo modelo de negócio de PWLAN está sendo introduzido. A Cometa Networks - anunciada oficialmente no final do ano passado e fundada pela AT&T Wireless, IBM e Intel, é também suportada pelos Venture Capital
Apax Partners e 3i - construirá uma grande infra-estrutura de Wi-Fi nas 50 maiores cidades americanas e atuará como um fornecedor de acesso de WLAN no "atacado" para as operadoras e WISPs, que se responsabilizarão por "bancar" o custo de
aquisição do cliente final. A economia deste modelo - que ainda tem que ser provado - teria que ser mais favorável aos operadores de PWLAN, pois eles podem compartilhar o custo da infra-estrutura de rede, o sistema de billing único e os custos de instalação. Os recursos economizados poderiam ser
utilizados para promover o serviço, reduzir as tarifas do mesmo e aumentar a
cobertura. Um dos primeiros clientes do "modelo de atacado" da Cometa - que planeja instalar 20 mil hotspots nos EUA - foi o McDonald's. Para mais informações sobre a Cometa
Networks veja Smart Convergence em 5 de dezembro de 2002 e também a análise bem recente The Short, Happy Honeymoon of Cometa Networks da Pyramid Research.
Como players importantes de WLAN no mercado varejista americano temos:
[1] a T-Mobile (operadora de celular da alemã Deutsche Telekom AG) com seus 2,3
mil hotspots e parceria com fortes grupos como Starbucks, Borders Books & Music Stores, Admiral Clubs e Kinko's. Veja aqui as localidades dos hotspots
dos parceiros da T-Mobile;
[2] um outro exemplo interessante nos EUA (e que inclui o Canadá) é o caso da Toshiba em parceria com a Accenture com a sua estratégia de "hotspot in a box" que estará sendo comercializada para cafés, restaurantes, hotéis entre outros que terão o ônus de "tourear" o cliente final. A idéia da Toshiba é que os "facility owners" aqui chamados de "resellers" - um player importante na cadeia de valor de PWLAN - agreguem a oferta de Wi-Fi à sua linha normal de produtos e evidente tenha o custo de aquisição do cliente final. A Accenture se responsabilizará pelo back-office do billing e da autenticação como também pelo serviço de help desk para usuários. Os "resellers" se responsabilizarão pela comercialização do serviço, instalação do hardware do hotspot e manutenção do mesmo.
[3] a AT&T Wireless com seu serviço de Wi-Fi próprio chamado Go Port e em parceria com um grande WISP chamado Wayport com sua
vasta cobertura de 525 hotéis e 12 aeroportos. Wayport comercializa acessos sem fio e fixo e a maioria do seu business vem do acesso wireline. Este WISP tem buscado fazer parcerias com vendors de hardware tais como: IBM, Dell e Palm para Tungsteen C;
[4] o importante network aggregator Boingo - com suas 1,3 mil localidades - que a Sprint PCS possui 30% de suas ações. Na Boingo - o maior network aggregator americano - os clientes instalam um software que detecta uma conexão Wi-Fi, e quando se "loga" tem serviços integrados de back-office para o billing e gerência da rede. A Boingo vende diretamente para o seu cliente final. Recentemente, a Boingo fez parceria com a T-Mobile buscando trabalhar o conceito de seamless connection entre Wi-Fi e GPRS. Veja sobre esse conceito nesta coluna Wi-Fi e celular: uma integração que dá certo;
[5] outros network aggregators nos EUA são: GRIC e iPass não trabalham diretamente com o cliente final. Eles habilitam provedores para fornecerem um serviço consistente e com uma única conta para o acesso sem fio e fixo;
[6] na telefonia fixa merece destaque a maior operadora americana a Verizon Communications que lançou recentemente um pacote de bundle services para ameaçar a suas competidoras de TV a Cabo. Veja Verizon Adds WLAN to DSL.
No mercado corporativo temos novamente a Verizon Communications focando o mercado PME (pequena e média empresa). Veja Verizon Now Selling Wireless Office Connections to Small Businesses in Northeast and Mid-Atlantic Regions e a Nextel foi a primeira operadora a focar o mercado no mercado corporativo de Wi-Fi. Veja Nextel lines up new wireless service. Finalmente, no Canadá, temos a Bell Canada buscando oportunidades de Wi-Fi no mercado corporativo de saúde.
Na Ásia temos algumas operadoras dando contribuições importantes para a "história" de WLAN:
[1] a Singapore Telecom - a famosa Singtel - foi a primeira operadora do mundo a adotar uma oferta "convergente" compondo uma mistura de telefonia fixa e celular juntamente com Wi-Fi. Veja os serviços: Outdoor Wireless
Surf e Home Wireless Surf;
[2] outro bom exemplo é operadora de telefonia fixa NTT Communications que foi a primeira a preconizar o pacote de bundle services - hoje muito falado nos EUA pela Verizon Communications e SBC - em WLAN: NTT VP Does not Expect 'Large
Revenue' e também a primeira a falar em ofertar o serviço IPv6. Para Wi-Fi Bundle Services veja também nesta coluna a matéria Telefonia fixa: Wi-Fi "bundle services";
[3] e "last but not least" - a campeã mundial em instalação de hotspots públicos - a Korea Telecom (KTC) da Coréia do Sul com 8.500 hotspots!!! Esta operadora tem mais da metade dos hotspots do mundo segundo o IDC. A KTC pretende investir mais 100 MUS$ até o final deste ano e chegar a 16 mil hotspots. Para conhecer um pouco da tradição e liderança da Coréia do Sul na utilização da de
em banda larga veja Understanding Broadband Demand - A Review of Critical Issues (Office
of Technology Policy - U.S. Department of Commerce).
Se você é cético e não acredita - segundo a matéria matéria Wi-Fi Means Business da Business Week - na evolução da tecnologia de WLAN nas corporações poderá "apimentar "
mais suas dúvidas lendo a matéria WLAN - bubble or bonanza? do The Chilli. Boa sorte!!!
Esperemos que este "passeio" em mercado e no mundo de WLAN sirva para algumas operadoras brasileiras de telefonia - no mínimo como "consulta" - na construção da visão dos seus serviços de Wi-Fi.


• Eduardo Prado é Consultor Independente de Novos Negócios. Engenheiro Eletrônico pela UFRJ (1977) com mestrado em Automação e Controle de Processo na COPPE/UFRJ (1979). Trabalhou na DBA Engenharia de Sistemas, Proceda Systemhouse, Promon Engenharia, Promon Eletrônica e na COPPE/UFRJ. Participou da criação da primeira Clearing House privada brasileira privada de telecomunicações - a Cleartech em Campinas - que hoje é uma empresa da DBA, EDS do Brasil e do CPqD.
O autor também mantém um blog pessoal em www.smartconvergence.blogger.com.br
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