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 HOME CONVERGÊNCIA DIGITAL16/06/2003

Vem aí a nova geração de
tecnologia 4G (sem fio)

Eduardo Prado - Smart Convergence

"O futuro sempre vem muito rápido..." - disse certa vez o famoso futurologista Alvin Toffler - "...e as vezes na ordem errada".

Essa frase aplica-se muito bem à chegada de um "grupo de novas tecnologias wireless" chamado 4G (Fourth Generation Mobile Telephony), após o estrondoso fracasso da famosa 3G (Third Generation Mobile Telephony) aonde as operadoras de telefonia móvel gastaram aproximadamente 100 BUS$ (sic!) na compra de licenças, e até hoje a tecnologia não "decolou". Será que ainda irá "decolar"? Quem viver verá. A tecnologia 4G, que só era esperada por volta de 2005, está aqui - e agora -senhores (as).

O interesse das operadoras de telefonia móvel na 3G estava baseado na visão das mesmas, de que iriam aumentar suas receitas com a "mina de ouro" dos serviços de multimídia. Uma avaliação errada do ponto de vista do mercado consumidor e também saúde financeira das operadoras. Estas tiveram que desembolsar além do previsto pelas licenças, em virtude da acirrada concorrência. Mesmo nas operadoras aonde a tecnologia 3G já se encontra em operação, a demanda por vídeo e serviços de multimídia é bastante tímida. A operadora européia mmo2 no final do mês passado pôs obstáculos em relação a seus investimentos no mercado de 3G. A Vodafone escolheu prorrogar seu empenho na tecnologia 3G.

Enquanto a 3G tem tropeçado, uma outra tecnologia sem fio - chamada de Wi-Fi - tem inspirado uma "mania" que só foi vista pela última vez durante a famosa fase da "bolha da internet" (serão maus presságios?). Como vocês sabem, temos escrito muito nesta coluna sobre Wi-Fi. Por causa da limitação do alcance da cobertura da tecnologia Wi-Fi (poucas centenas de metros), uma cobertura universal é impraticável. Embora dezenas de start-ups - por exemplo Vivato e Aperto Networks, para citar apenas algumas) - estejam trabalhando no sentido de estender a cobertura do Wi-Fi. Atualmente seria necessário centenas de pontos de acesso para cobrir a mesma área de uma ERB (estação rádio-base) da tecnologia de celular.

O que teríamos se pudéssemos combinar o acesso em banda larga na internet, do Wi-Fi, com um "grande cobertor" e poucas ERBs de um rede de tecnologia móvel? É isso aí: teríamos o que está sendo chamado de oferta da 4G. Várias empresas tais como IPWireless, Flarion, Navini, ArrayComm, Broadcomm, BeamReach Networks, Soma Networks e Tantivy Communications estão ofertando exatamente essa "mistura". Veja o que a IEEE Spectrum Magazine fala destas novas tecnologias de wireless broadband networks em What's Right With Telecom (veja adicionalmente Wireless Broadband in a Box). Mas se você também quer saber o que está errado em telecom veja no What's Wrong With Telecom.

Não existe uma definição formal de 4G, mas o que todas essas tecnologias têm em comum é que elas são redes wireless de alta velocidade cobrindo vastas áreas, e projetadas acima de tudo para transmitir dados, em vez de voz ou a mistura deles. Elas podem transmitir dados para e de dispositivos móveis em uma velocidade de "banda larga" de 10 a 20 vezes mais rápida que uma conexão de modem dial-up.

Essas redes wireless de banda larga são baseadas em versões mais modernas do famoso WLL (Wireless Local Loop) dos tipos MMDS (Multichannel Multipoint Distribution Service) ou LMDS (Local Multichannel Distribution System) e não requerem "Linha de Visada" (NLOS = Non-Line of Sight; Veja aqui sobre Line of Sight) para operar.

As tecnologias daquelas empresas são proprietárias e incompatíveis uma com as outras, embora muitas sejam baseadas em tecnologia similar. Flarion e BeamReach Networks têm ambas versões próprias do Orthogonal Frequency Division Multiplexing (OFDM), a mesma tecnologia do padrão IEEE 802.11a de Wireless LAN e algumas vezes referenciado como tecnologia 4G sem fio. A sigla 4G está muito próxima de OFDM. A maioria das outras são variações do CDMA, a tecnologia que é o "coração" da 3G sem fio (wireless). A Navini tem o seu próprio sistema CDMA, sobre o qual diz ser mais eficiente que o da 3G convencional, enquanto a Tantivy é baseada no CDMA 2000, desenvolvido pela Qualcomm e utilizado pelas operadoras de telefonia móvel Verizon Wireless e Sprint PCS dos EUA.

A Soma e a IPWireless têm implementado partes diferentes do UMTS (o padrão da 3G utilizado na Europa e Japão). Isso significa que eles podem ser compatíveis com UMTS. Ambas empresas têm sacrificado partes do padrão para assegurar uma aproximação com a Nokia e a Ericsson, os tradicionais fornecedores do 3G.

EMPRESA TECNOLOGIA
Arraycomm Proprietary TDMA
BeamReach Proprietary OFDM
Flarion Proprietary OFDM
IP Wireless UMTS TD-CDMA
Navini Proprietary S-CDMA
Soma Networks W-CDMA
Tantivy Communications Partial CDMA 2000

O IEEE definiu recentemente o padrão para o "acesso sem fio de banda larga" (BWA = Broadband Wireless Access) que é o padrão 802.16 que trabalha com três tipos de redes: fixa, portátil e móvel. Veja esses tipos na Tabela de 802.16.

Infelizmente a primeira versão definida no 802.16 foi a fixa que não endereça o issue de mobilidade. Veja em Working for the MAN (Metropolitan Area Network) e a matéria O "Dia Seguinte" do Wi-Fi, nesta coluna, para ver o lançamento do 802.16 em abril deste ano. O padrão 802.16 é complexo e tem deixado vários compromissos em aberto. Isso pode provocar ao mesmo falta de aderência de alguns vendors, enquanto persistirem as incompatibilidades. Veja Enter the MAN Haters para atestar a existência de algumas insatisfações pela definição do padrão, há dois meses atrás.

Enquanto isso, vamos esperar para ver como as empresas detentoras da tecnologia de 4G - com padrões proprietários atualmente - vão aderir ao IEEE 802.16. A aderência a um padrão sempre é saudável para todos. Vejam o exemplo do Wi-Fi (sigla "cunhada" para expressar exatamente a aderência ao padrão iEEE 802.11 b, e apenas isto).

Várias operadoras de telefonia no mundo (fixa e móvel) estão buscando a ampliação dos seus serviços de banda larga através da 4G. A Verizon Communications está testando a tecnologia da Beam Reach Networks. A Sprint PCS utiliza as tecnologias da Navini e da IPWireless nos seus testes pilotos. A Korea Telecom Corp (KTC) testa as tecnologias Flarion e ArrayComm. A rival da KTC - a operadora Hanaro - também está testando Flarion. A NTT DoCoMo também anunciou recentemente sua intenção de testar a tecnologia 4G.

As redes de banda larga sem fio podem ser vistas de duas formas: como uma tecnologia rival do Wi-Fi, que oferece maior cobertura, ou como uma alternativa às tecnologias de cabo e ADSL, que atualmente oferecem acesso de banda larga para residências e empresas. A maioria das operadoras de telefonia móvel vê a 4G da primeira forma e as operadoras de telefonia fixa a vêem da segunda forma. Mas de fato, a tecnologia 4G proporciona uma convergência digital do wireless com a banda larga, seguindo você a qualquer lugar!

Vários vendors como Alcatel, Nortel e LG Electronics estão licenciando a tecnologia 4G para produção em grandes volumes. Até agora, nenhum dos fabricantes de 4G, conseguiu um contrato para implantação da tecnologia 4G, em larga escala, de uma grande operadora de telefonia, mas muitos afirmam que estão próximos deste objetivo.

As diferenças técnicas e regulatórias determinarão quais tecnologias serão adotadas e aonde. A tecnologia da Flarion é bem conveniente, por razões técnicas e regulatórias, tanto para as Américas quanto para a Coréia do Sul. Na Europa, o sistema da IPWireless pode ter mais apelo. Quando as operadoras de telefonia celular compraram suas licenças de 3G, um espectro extra para serviços de dados, com alta velocidade, foi também adquirido, e a tecnologia da IPWireless usa este espectro - a tecnologia da IPWireless utiliza um protocolo que tecnicamente está contido na definição européia da tecnologia 3G. A Flarion e os outros fornecedores esperam que os reguladores europeus relaxem as regras vigentes para permitir que suas tecnologias possam também ser utilizadas neste espectro de 3G. Na Coréia do Sul, as operadoras têm testado várias tecnologias de 4G, que deverão ser adotadas ou não, dependendo da vontade dos reguladores, que devem tomar a decisão ainda este ano. A tecnologia 4G já está "batendo na porta".

Os defensores da tecnologia 4G argumentam que, ao contrário do 3G e do Wi-Fi, o business case da 4G "fecha bem as contas". A 3G se baseia fundamentalmente na necessidade do assinante em ter serviços de multimídia e que até agora não se materializaram, de fato. Até agora ninguém está seguro como o Wi-Fi irá trazer receita. O número de conexões diárias nas oportunidades de WLAN Pública no exterior (EUA, Ásia e Europa) ainda é tímido - e várias iniciativas estão a caminho com os diversos players competindo para instalar milhares de hotspots. Veja as diversas iniciativas de Wi-Fi no mundo através desta coluna no artigo O mercado e um "passeio" pelo mundo de Wi-Fi.

Atualmente a tecnologia 4G está sendo valorizada como uma oferta de acesso fixo de banda larga, um serviço pelo qual milhões de usuários no mundo (evidentemente dependendo da receita "familiar") podem pagar até o máximo de US$ 50 por mês. Enfatizando primeiro a velocidade e, depois a mobilidade, as redes 4G podem inicialmente ser construídas nas regiões aonde as tecnologias de cabo e banda larga (ADSL) não são disponíveis, para capitalizar a demanda por banda larga e, então depois expandí-la para assegurar o "cobertor da mobilidade".

A 4G pode ser vista, sem dúvida, como uma tecnologia de "quebra de continuidade" (disruptive technology). As empresas de acesso de banda larga e de cabo sofrerão uma forte concorrência da 4G. O Wi-Fi tem o problema do alcance físico. As empresas de telefonia móvel ainda encontrarão "falhas" nos seus planos de negócios de 3G a menos que elas decidam abraçar a 4G. Assim a visão futurista de Toffler, de "ordem invertida", se confirmará.

Ainda não é muito claro como os investidores julgarão as empresas de telefonia que resolverem partir para a utilização da 4G. Várias operadoras têm se mantido bem "quietas" para evitar confusão no mercado. Por exemplo, a Telefónica de Espanha abandonou seus planos de 3G no ano passado e suas ações subiram. Para mais detalhes sobre 4G, veja também o artigo Unwiring the Last Mile. Excelente leitura.

No Brasil não temos - ainda - notícias da 4G. Várias operadoras estão migrando para 2,5G (em GPRS ou CDMA-1xRtt). A Vivo já começou a falar em CDMA-1xEV-DO. Sabem o que significa o "DO" deste 1x? Data Only. Será que não é a hora da Vivo pensar em 4G em vez de 1xEV-DO? As outras operadoras (de GPRS ou que estão fazendo algum upgrade de tecnologia) não terão fôlego - em um prazo muito curto - para pensar em 4G. Acredito eu!



Eduardo Prado é Consultor Independente de Novos Negócios. Engenheiro Eletrônico pela UFRJ (1977) com mestrado em Automação e Controle de Processo na COPPE/UFRJ (1979). Trabalhou na DBA Engenharia de Sistemas, Proceda Systemhouse, Promon Engenharia, Promon Eletrônica e na COPPE/UFRJ. Participou da criação da primeira Clearing House privada brasileira privada de telecomunicações - a Cleartech em Campinas - que hoje é uma empresa da DBA, EDS do Brasil e do CPqD.
O autor também mantém um blog pessoal em www.smartconvergence.blogger.com.br
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