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 HOME CONVERGÊNCIA DIGITAL04/08/2003

INTEL (com Nokia) & MOTOROLA (com
Cisco) NO 4G: Outra grande disputa

Eduardo Prado - Smart Convergence

Na última matéria desta coluna O Wireless Personal Area Network (WPAN) destacamos a recente disputa entre a Intel (alinhada com a Texas Instruments (TI) e outros players) e a Motorola (alinhada com a XtremeSpectrum) na definição do padrão IEEE 802.15.3 que é o WPAN de alta taxa de transmissão de dados também conhecido com UWB (Ultrawideband) liberado no ano passado para utilização comercial pelo Pentágono.

Vamos contar aqui um pouco da disputa que está ocorrendo no segmento de Broadband Wireless Access (BWA) entre a Intel (defensora do IEEE 802.16) e a Motorola (defensora do IEEE 802.20). Esses padrões (ou apenas um deles) estabelecerão as definições do revolucionário BWA que proporcionará a conexão sem fio a longa distância, em boa velocidade e nas formas ponto-a-ponto e ponto-multiponto para transmissão de voz e imagens. Muita coisa vai mudar na prestação de serviços de telecomunicações e nas facilidades de comunicações para as corporações em futuro próximo em função da utilização comercial do BWA.

As batalhas dos padrões são normalmente conduzidas em comitês "poeirentos", e levantam pouco interesse da comunidade consumidora de tecnologia até que os fabricantes (vendors) as transformem em especificações de produtos reais e, comece a guerra de marketing no mercado. Os padrões wireless do IEEE estão provando ser a exceção a essa regra. A relativa rapidez com que esses padrões estão sendo ratificados (e comercializados) e o intenso interesse público no Wi-Fi (IEEE 802.11b) e seus "parentes" (IEEE 802.11a e 802.11g) significam que as várias especificações dos padrões 802.xxx estão sendo tratadas com extrema confiança pelo mercado.

Talvez o principal fator chave para esse movimento é que os vendors estão vendo - pela primeira vez desde o boom da internet - uma nova e genuína fonte de receita, e uma vez se engajando nesta luta desde o início, podem estabelecer a chance de terem o controle dela. Always ... money talks!

Grandes nomes estão reunidos suportando dois Grupos de Trabalho do IEEE na definição de dois padrões - que podem ser vistos como complementares - mas estão encabeçando uma disputa que além de "paixões" de natureza técnica podem substanciar uma grande batalha sobre o futuro do mercado wireless e - é óbvio - as conseqüentes oportunidades de negócios.

De um lado nós temos o Grupo do IEEE 802.16x - o famoso Wireless Metropolitan Área Network (WMAN) - muito conhecido pelo nome da associação que dá suporte ao mesmo WiMax (Worldwide Interoperability for Microwave Access) que é visto no mercado como uma "porta voz" da Intel e está dando forma a talvez uma das mais significantes tecnologia sem fio. Não é à toa que a própria Intel cunhou a seguinte frase sobre o mesmo: "o 802.16 é a coisa mais importante desde a própria Internet".

Do outro lado nós temos o Grupo do IEEE 802.20, apelidado de Mobile-Fi, o primeiro standard a ser especificamente projetado para carregar o tráfego nativo IP para acesso em banda larga de forma completamente móvel. Ele proporcionará taxas de transmissão simétricas de 1 Mbps a 4 Mbps em espectros licenciados abaixo de 3,5 GHZ em distâncias de 15 km aproximadamente. Isto faz com que ele tenha menos potência que o WiMax mas seja intrinsicamente móvel (mobile) oferecendo uma latência de 10 ms - até mesmo para um veículo movimentando-se rapidamente - comparado aos 500 ms do 3G.

O padrão 802.20 parece ser altamente posicionado contra a versão móvel do WiMax - o 802.16e - que tem um forte interesse da Nokia e da Intel. Embora os dois padrões tenham começado baseados em aspectos técnicos diferentes e endereçarem problemas suavemente diferentes, o WiMax ameaça tornar o 802.20 redundante. Por trás do 802.20 temos a Motorola e a Cisco que parecem estar bem determinadas em fazer o seu padrão preferido, o padrão dominante do BWA ao invés de buscar uma aproximação com o padrão comandado pela Intel, o WiMax. Aparentemente essa determinação pode ser desastrosa. O WiMax está bem mais adiantado que o Mobile-Fi - e até mesmo a sua versão mais recente (a móvel 802.16e) está há um ano na frente do seu rival - e dessa forma apoiar o 802.20 é retornar ao passado. Além do mais, o padrão 802.16 é uma tecnologia que pode ser acomodada de forma relativamente simples pelas operadoras de telefonia móvel.

O 802.20 foi estabelecido em fereveriro deste ano pouco antes do lançamento da ratificação da extensão 'a' do 802.16. E a disputa ainda continua por aqui. O Mobile-Fi não será ratificado antes do final de 2004 e os primeiros chips do 802.16 serão produzidos no início de 2004. O Mobile-Fi tem encontrado também uma forte resistência na poderosa indústria de tecnologia móvel com vários players de 3G encarregando-se de "bater pesado" no padrão 802.20 - por razões óbvias. Veja na matéria Move over 3G: here comes 4G da revista The Economist a ameaça da tecnologia 4G proprietária aos vendors de 3G. O padrão 802.20 é fortemente defendido pelos detentores desta tecnologia de 4G proprietária - e prejudicialmente não inter-operável - a saber: Navini Networks, Flarion e IPWireless para citar apenas alguns deles.

Então por quê esses dois grupos não aprofundam seu trabalho conjunto em uma especificação das conexões de banda larga sem fio, ao invés de continuarem competindo entre si? A política é a resposta! Ela é hoje um símbolo dos mais fundamentais para as disputas que estão acontecendo no cenário mundial de tecnologia de negócios quando grupos específicos encarregam-se em defenderem nichos específicos para os seus produtos. Dessa forma, os dois gigantes dos chips - Intel e Motorola - têm se empenhado em utilizar qualquer tipo de arma - inclusive os importantes comitês que estabelecem os padrões - para consolidarem posições importantes no mercado de comunicações móveis.

A Motorola tem atuado deseperadamente para manter a Intel longe da sua base de smartphones. Do lado da Motorola temos a Cisco que suporta a Flarion no 4G. Esta última é o elemento tecnológico chave por trás do 802.20.

Mais uma vez nós presenciamos uma batalha épica acontecendo "dentro das paredes" do IEEE!

Todas essas políticas têm polarizado os projetos do IEEE este ano. Em março, o corpo do padrão 802.16a foi ratificado, com sua versão "sem linha de visada" (NLOS = non line of sight), que representa a versão fixa da banda larga sem fio, e deu início ao processo do 802.20. Naquela época a Intel e a Nokia decidiram por todo o seu peso na aposta do WiMax quando ambos os padrões pareciam - ainda - ser obscuros.

Eles estavam, quase que realisticamente posicionados como complementares. O WiMax tinha se tornado a base para definição dos requisitos de endereçamento de última milha usando o conceito do "móvel fixo" (fixed wireless), enquanto o 802.20 estava aprofundando a padronização de vários esforços para proporcionar uma solução de banda larga completamente móvel utilizando a tecnologia IP (Internet Protocol). Até mesmo a variante móvel do WiMax - o 802.16e - ainda era amplamente visto como uma extensão do padrão "móvel fixo" - o 802.16a - ao invés de padrão completamente móvel pelas suas próprias características.

O papel principal do WiMax tem sido ampliado consideravelmente, pela proeminência que o Wi-Fi tem alcançado nos últimos tempos. A "última milha" tem sido um issue, principalmente para as operadoras de telefonia fixa, quando elas precisarem cortar custos e acelerar o roll-out utilizando tecnologia wireless (sem fio) ao invés da tecnologia wired (com fio). O potencial do WiMax tem se tornado um ativo diferenciado a medida que ele aumenta dramaticamente o potencial de suportar o back-office da instalação de hotspots de Wi-Fi propocionando redes sem fio de até 30 milhas ou mais.

Para a Intel este é o caminho de fazer notebooks e PDAs sem fio mais atrativos aumentando a sua capacidade de conectividade através de uma tecnologia mais poderosa do que o Wi-Fi pela sua limitação de alcance geográfico. Para a Nokia, mais significantemente, o WiMax representa a possibilidade de criar um negócio completamente novo no segmento de handsets, e esta empresa promete lançar aparelhos celulares móveis de WiMax em 2005.

Esses movimentos têm "encurralado" o 802.20 no seu território. O esforço de apoiar esse padrão foi encabeçado pelos pioneiros da Quarta Geração (4G) em IP - notadamente Flarion e Navini Networks, que recusaram-se perempetoriamente a dar qualquer colaboração no padrão 802.16e, e chamando para eles a "solução mais pura" do IP móvel. Com apenas uma "levíssima" (sic!) diferença - eles trabalham com tecnologia completamente proprietária e não interoperável entre os próprios fornecedores do 4G atual.

Para conhecer alguns destes fornecedores proprietários, veja: IPWireless, Flarion, Navini Networks, ArrayComm, Broadcomm, BeamReach Networks, Soma Networks e Tantivy Communications. Veja também a matéria Vem aí a nova geração de tecnologia 4G (sem fio) desta coluna.

Se considerarmos que os interesses políticos ficarão em segundo plano em curto prazo, parece-nos que o 802.20 se recolherá a sua "insignificância", ou será redirecionado para um nicho específico de aplicação - notadamente numa área que ele é excelente - aquela aonde as comunicações móveis de banda larga são necessárias para veículos movendo-se em rápido movimento (o padrão 802.20 suporta mobilidade veicular, com velocidades de até 250 km/h).

O melhor resultado para ambos os grupos seria se o 802.20 adotasse as especificações do WiMax em seus produtos e o melhor do 802.20 migrasse para o 802.16e. Ironicamente, isso tem uma chance muito remota de acontecer uma vez que a Motorola teria que aceitar sua derrota e buscar outras "armas" para evoluir em sua estratégia de BWA.

Vimos uma realidade que comanda diferentes interesses dos vendors em detrimento do que pode ser mais conveniente para a comunidade de negócios (e tecnologia).

Veja outras referências para o WiMax: A Future Option for Wireless MANs do 802.11 Planet, Wireless to the max - WiMAX do site Arcchart e WiMAX set to overshadow Wi-Fi do The Enquirer inglês.



Eduardo Prado é Consultor de Novos Negócios & Tecnologia. Engenheiro Eletrônico pela UFRJ (1977) com mestrado em Automação e Controle de Processo na COPPE/UFRJ (1979). Trabalhou na DBA Engenharia de Sistemas, Proceda Systemhouse, Promon Engenharia, Promon Eletrônica e na COPPE/UFRJ. Participou da criação da primeira Clearing House privada brasileira privada de telecomunicações - a Cleartech em Campinas - que hoje é uma empresa da DBA, EDS do Brasil e do CPqD.
O autor também mantém um blog pessoal em www.smartconvergence.blogger.com.br
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