
Um Passeio pelo Roaming em Wi-Fi
• Eduardo Prado - Smart Convergence
Por que a funcionalidade de roaming - tão íntima nossa - vai ser fundamental do ponto de vista de negócio no mercado de Wi-Fi e no futuro mercado de BWA (Broadband Wireless Access - veja este link "tímido" sobre BWA que já começa a aparecer como cultura. A educação é um dos enablers de qualquer tecnologia nova). Para referências sobre BWA veja a matéria INTEL (com Nokia) & MOTOROLA (com Cisco) no 4G: Outra grande disputa, desta coluna.
O roaming de Wi-Fi e BWA são (e vão ser) muito importantes, em parte, pela mesma razão de hoje. Garantia de conectividade em "terra alheia àquela que contratamos o serviço". Lembram-se quando a Oi foi lançada muita gente não adquiria o seu serviço pois eram profissionais que viajavam frequentemente para São Paulo e a TIM Brasil por questões regulatórias ainda não tinha sido autorizada a operar em São Paulo para assegurar o serviço de roaming naquele estado para a "jovem" operadora carioca.
Quando a TIM Brasil começou a operar em São Paulo, os celulares da Oi deixaram de ficar "mudos" no estado mais importante do nosso país. Com Wi-Fi o problema será muito mais crítico, por causa de sua menor cobertura geográfica (de 100 a 200 metros), comparada a uma ERB de celular (de 3 a 4 km, acredito eu). Com BWA o problema aparentemente é menor por causa da cobertura desta tecnologia - que é de 40 a 50 km - mas será também piorado, pois existirão vários players diferentes das operadoras de telefonia (móvel e fixa) que farão o "face-to-face" com o usuário final e precisam assinar acordos de roaming para serem remunerados pela sua grande contribuição na cadeia de valor no serviço de conectividade em banda larga.
Para melhorar do ponto de vista de negócio o mercado de wireless incluindo Wireless LAN (WLAN) está crescendo no mundo. O número de assinantes mundiais no final de 2002 foi de 1,1 bilhão, liderados pelo vendor Nokia que estima que o mercado crescerá 10% em 2003 e que alcançará 1,6 bilhão no final de 2005. A guerra de hotspots deverá começar no ano de 2004 aonde a batalha será travada pelo cliente residencial enquanto o BWA (com o 802.16 comandando e os "proprietários" perdendo mercado) batalhará pelo mercado das operadoras de telefonia.
A móvel e a fixa precisarão dele. Vamos concluir juntos. O que você acha de uma tecnologia com as seguintes características: conexões ponto-a-ponto e ponto-multiponto, comunicação de voz e dados, boa velocidade, alcance de 50 Kms, Non Line of Sight (NLOS), Modulação OFDM e "padronizada" (segundo o 802.16 ou o 802.20 ou eles compostos - o que seria ideal) para assegurar inter-operabilidade e funcionalidade que os "proprietários" Flarion, Alvarion, IP Wireless, Navini Networks, BeamReach Networks, entre outros, não garantem.
No mínimo eu diria que as operadoras de telefonia (e outros players) deveriam olhar com bastante interesse o "4G padronizado". Ele vai criar história. Ele é compatível com o 802.11? Veja o que diz um especialista aqui: 802.16: A Look Under the Hood.
Vamos apresentar alguns casos no mundo que vão ajudar cada vez mais a consolidação do mercado de Wi-Fi em termos de roaming e volume na abrangência (a escala é muto importante em Wi-Fi - é um jogo de gigantes), a saber:
[a] Boingo
Boingo é um Network Aggregator (NA) na cadeia de valor de Wi-Fi. O que é um NA? O NA atua de forma diferente de um WISP (Wireless ISP). Ele faz acordo compartilhamento de lucros (profit sharing) com os WISPs e outros proprietários de hotspots (facility owners) e ofertam o serviço de conectividade de Wi-Fi numa base de assinatura mensal via uma conta única e sistema de billing (faturamento) centralizado. Os usuários normalmente instalam um software (sniffer) fornecido pelo NA que detectam uma conexão Wi-Fi, e através da sua conexão no serviço, ele estará integrado ao sistema de billing e ao gerenciamento de rede do NA. Existem variações no modelo de negócio do NA. No caso da Boingo ela comercializa diretamente o serviço mas outros NAs são dependentes dos parceiros na comercialização.
Recentemente a Boingo anunciou que seu sistema de roaming já possui 2,6 mil localidades. Através de um acordo de roaming com a STSN com sede em Salt Lake City, a Boingo adicionou 425 instalações de hotéis a sua base de interconexão. A STSN - uma empresa com investimento da Intel Capital - é um fornecedor de comunicações convencional (wired) e sem fio para a comunidade hoteleira.
A Boingo está presente em 15 países da América do Norte e Latina e Europa e fornecendo conectividade em vários tipos de localidades (hotel, aeroporto, marinas entre outros). Atualmente a cobertura da Boingo inclui 1.300 hotéis, 600 cafés, 30 aeroportos e nove centros de convenções. Mais de 1.400 localidades estão conectadas atualmente com o restante - do total de 2.600 localidades - entrando em operação em um prazo de 90 dias.
A Boingo estabeleceu recentemente uma parceria com a T-Mobile para desenvolver um software de seamless connection permitindo o gerenciamento de conexão entre as redes GPRS (tecnologia da T-Mobile) e Wi-Fi.
Em julho do corrente, a Boingo assinou um acordo com a TSI Connections para estabelecer a cooperação de serviços de roaming para redes Wi-Fi e WWAN (telefonia celular). Através deste acordo, as empresas operadoras de telefonia móvel podem adicionar os serviços de WLAN da plataforma Boingo a sua oferta de produtos e, através da relação, terão a garantia da integração destes serviços com os seus sistemas legados incluindo dados de autenticação e billing, como também todos os relatórios de gerenciamento para simplificar o billing do cliente. Veja a solução de Roaming de Wi-Fi da TSI.
A Boingo utiliza o software Portal como seu sistema de billing. A Boingo tem também um acordo com o vendor Colubris para utilização desta tecnologia como parte da sua solução. Outros parceiros de plataforma tecnológica da Boingo são: Linksys, Proxim, D-Link, SMC e Netgear, que juntas representam 70% do mercado de cartões de Wi-Fi. Entre parceiros de hotspots, a Boingo conta com Wayport (um dos primeiros operadores de hotspots), Surf and Sip, Airpath, Pronto Networks, NetNearU, Deep Blue, Fatport, Gatespeed, Airborne Access, Air Portal, Air2LAN, Ikano, e Azure. Na áera de laptops a Boingo tem bundling agreements com a Sony e a HP.
A Boingo tem a maior base agregada dos EUA. A empresa foi criada no início de 2002 e recebeu MUS$ 15 em fundos de Venture Capitals e grandes instituições incluindo Lucent e Sprint PCS (veja outros investidores). Em passado recente, segundo algumas opiniões do mercado, fornecer apenas acesso via Wi-Fi, enfraquecia o modelo de negócios da Boingo.
O criador da Boingo é o empreendedor Sky Dayton que também fundou o ISP Earthlink nos EUA. Veja matéria sobre a Boingo aqui: Sky Dayton's Long Road to Internet Nirvana como também a referência Boingo Hits 2,600 Hotspots.
[b] GRIC Communications
GRIC Communications é um outro NA. A GRIC habilita provedores de serviço a fornecer uma consistente experiência aos usuários emitindo uma única conta mensal pelo accesso convencional (wireline) ou acesso sem fio via hotspots.
Enquanto a Boingo somente fornece acesso sem fio, a GRIC (como também iPass) suportam acessos dial-up e sem fio.
O serviço global de Wi-Fi da GRIC tem mais de duas mil localidades de acesso móvel de banda larga em 14 países para seus clientes corporativos. A rede GRIC TierOne Network oferta acesso a clientes individuais e corporativos que espalham-se em 150 países e inclui mais de 30 mil acessos convencionais e localidades com acesso sem fio (Wi-Fi). Recentemente a GRIC assinou um acordo com a Singapore Telecom (SingTel) para ofertar o seu serviço de acesso Wi-Fi aos clientes de WLAN daquela operadora. Em contrapartida a SingTel adicionará mais de 200 localidades com hotspots à rede GRIC TierOne Network, tornando-a disponível para vários executivos durantes suas viagens. Através da sua rede mundial de roaming, a GRIC adicona um valor inestimável aos seus acordos de cooperação estratégica ao redor do mundo. A GRIC assinou recentes acordos com a AT&T fixa (AT&T Taps GRIC for Hotspots), com a @nifty no Japão (GRIC Unwires @nifty) e com a Hanaro na Coréia do Sul (Hanaro Picks GRIC).
Adicionalmente, a GRIC está perseguindo oportunidades de serviços de valor adicionado para posicionar-se melhor na cadeia de valor. Ela está focando corporações para oferecer um "pacote" de mobile office incluindo conectividade mais alguns serviços tais como acesso com segurança, hosting de aplicação corporativa e sistema de billing integrado.
Em março deste ano, a GRIC lançou uma oferta de serviços Wi-Fi/Ethernet de banda larga voltado para o mercado corporativo.
Veja aqui alguns dos parceiros tecnológicos da GRIC.
[c] iPass
iPass, um outro NA, tem um modelo de negócio mais limitado que a Boingo e a GRIC. Por exemplo, a GRIC oferta VPN (virtual private network) mas o iPass não oferta aplicações ou as estende internacionalmente. No ano passado lançou uma rede no aeroporto internacional de St Paul em Mineapólis (EUA) posicionado como um fornecedor neutro de acesso wireless acomodando assinantes de vários provedores. Como WISPs, existe um lugar na cadeia de valor que os NAs estão próximo dele. Contudo, o custo de aquisição do cliente é muito alto para estas empresas start-ups e com marcas "fracas" - especialmente na competição com "peso-pesados" da telefonia móvel. Atualmente, os NAs estão precisando alinhar-se com as operadoras de telefonia (móvel ou fixa) para participarem mais das oportunidades de WLAN Públicas.
Em abril deste ano, a iPass atingiu sua marca de mil hotspots de Wi-Fi ativos desde que lançou seu serviço mundial Global Broadband Roaming (GBR). A iPass oferece serviço em de mil hotspots de 11 diferentes provedores de rede (WISPs) em 10 diferentes países. A iPass tem mais de 30 hotspots no Reino Unido operado pela Surf and Sip. Adicionalmente, a iPass está presente em 16 grandes aeroportos nos EUA, Europa e Ásia; em mais de 500 hotéis incluindo Four Seasons, Wyndham Hotels and Resorts, Sheraton, Doubletree and Embassy Suites e vários cafés, restaurantes e intenet cafés.
iPass fez as seguintes parcerias recentemente: STSN (IPass Integrates for STSN), Cometa Networks (Cometa Hooks Up With iPass), Intel (Intel & iPass Connect), Toshiba (Toshiba Teams With iPass) e FatPort do Canadá (IPass, FatPort Boost WiFi). A iPass também tem uma parceria tecnológica com a Colubris. Veja aqui os parceiros estratégicos e tecnológicos da iPass.
Um fato muito relevante ocorreu em julho deste ano quando o IPO da iPass atingiu MUS$ 98, uma cifra recorde para este tipo de negócio e que pode estar abrindo caminho para outras iniciativas do gênero relacionadas com start-ups de 802.11. Vale ressaltar que a iPass sinalizou um lucro de MUS$ 6.7 em 2002 para vendas de 93 MUS$ enquanto seu competidor GRIC Communications apresentou um lucro de 5MUS$ para uma receita de 34.7 MUS$.
[d] Wireless Braodband Alliance
Temos também a colaboração da Wireless Broadband Alliance que começou na Ásia e está ganhando adeptos. Espera-se que até 26 mil hotspots globais possam ser avessados pelo roaming de WLAN até o final de 2003 seguindo as estimativas da Wireless Broadband Alliance. A British Telecommunications plc (BT), T-Mobile (UK), e a T-Mobile USA se associaram aos cinco fundadores desta Aliança - KT Corp., China Netcom Corp. Ltd., Maxis, StarHub, e Telstra Corp. - na tentativa de ajudar o roaming para assinantes de WLAN de diferentes continentes. Veja a referência Hotspot Roaming Fires Up e Global Broadband Alliance.


• Eduardo Prado é Consultor de Novos Negócios & Tecnologia. Engenheiro Eletrônico pela UFRJ (1977) com mestrado em Automação e Controle de Processo na COPPE/UFRJ (1979). Trabalhou na DBA Engenharia de Sistemas, Proceda Systemhouse, Promon Engenharia, Promon Eletrônica e na COPPE/UFRJ. Participou da criação da primeira Clearing House privada brasileira privada de telecomunicações - a Cleartech em Campinas - que hoje é uma empresa da DBA, EDS do Brasil e do CPqD.
O autor também mantém um blog pessoal em www.smartconvergence.blogger.com.br
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