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 HOME OPINIÃO30/09/2003

Finalmente o software brasileiro
parece que sairá das sombras

Vanda Scartezini

Dia 15 de setembro, em Boston, foi lançado um estudo pelo Massachussets Institute of Technology, o conhecido MIT, comparando a produção de software entre o Brasil, a China e a Índia. Não seria muito relevante se o estudo não trouxesse um facho de luz numa indústria que mesmo no Brasil não é conhecida da maioria, e que traga uma visão bastante positiva da produção brasileira quando comparada aos concorrentes de mesmo peso, Índia e China.

É importante termos uma visão da opinião externa de nossa capacidade produtiva nessa área para que possamos tirar o melhor proveito e ao mesmo tempo corrigir o que não está indo pelo melhor caminho.

O estudo é longo e pode ser acessado, em inglês, na página www.softex.br, mas alguns pontos merecem uma divulgação mais abrangente, e este é o propósito desta matéria, visando atingir a todos que militam nessa área, para que se crie o debate sobre os pontos levantados.

O Brasil aparece bem cotado quando se trata da capacidade técnica individual, mostrando o enorme esforço já realizado na preparação de pessoal especializado em TI em relação ao seu pessoal de nível superior. Aparecemos bem também no item tecnologia, onde demonstramos forte conhecimento em alguns domínios como o bancário, telecom e governo eletrônico, além de alguns nichos horizontais, enquanto a China tem conhecimento tecnológico em pesquisa aplicada e a Índia absorve tecnologia através dos contratos das empresas multinacionais, com fraco link com as universidades.

Nossa posição é ainda privilegiada quando se fala de gerenciamento, embora haja boa capacidade apenas nas grandes empresas e ainda sejamos considerados fracos nas demais, da mesma forma que nossos concorrentes.

Considerando-se os modelos de acesso a mercados as diferenças se acentuam, com o Brasil vendendo produtos e serviços no mercado interno, com algumas marcas relevantes neste mercado, mas ignorando totalmente no mercado externo, assim como a China, que, ainda pior, praticamente fraca no marketing em seu próprio território.

A Índia, sem mercado interno, e sem venda de produto, como é sabido, criou forte marca internacional na venda de serviços, e os resultados financeiros desta venda é que estão suportando o novo desenvolvimento de produtos.

Analisando de forma geral, o Brasil aparece como uma excelente opção para atingir mercados internacionais e abocanhar parte dos serviços da Índia, que é o grande objetivo do próprio país neste momento.

No entanto, as críticas mais relevantes são feitas exatamente nos itens relacionados a acessos a mercados.

Dois pontos aparecem com destaque:

a) Ausência de política governamental voltada para a promoção do software.
b) Ausência de uma institucionalização forte dessa indústria.

Enquanto a Índia é vista como extremamente agressiva no foco ao software, com ações como isenção de imposto de renda a toda empresa exportadora de software, criação de parques onde há políticas de incentivos fiscais para os produtores de software visando exportação, a China tem políticas agressivas no hardware, sendo que consideram software como algo agregável a esta força produtiva de hardware, que já conseguiram construir.

Nessa comparação, o Brasil é visto como um país que não foca suas prioridades, uma vez que tem uma política até considerada boa para hardware, mas que não conseguiu extrair dali nem uma posição internacional comparável a China, nem conseguiu incorporar ao hardware produtos de software de venda internacional, e por vezes ao contrário, criou enorme capacitação em software em algumas áreas dissociadas da produção de hardware a que se propôs incentivar.

Outra fraqueza importante apontada pelo estudo está na ausência de uma estrutura institucional relevante para o software. As associações da indústria produtora de software, tanto no Brasil como na China parecem não existir, enquanto a NASSCOM da Índia é hoje muito forte, e reconhecida mundialmente.

O próprio lançamento do estudo do MIT, em Boston, mostra como essas duas fraquezas se tornam claras quando o assunto é mercado externo: O coquetel de lançamento do estudo em Boston foi preparado por uma antiga empresa de um brasileiro aqui nos EUA - a Noelink, com apoio financeiro do Softex e de uma empresa de SP, a G&P. Não houve apoio ou presença do governo nem apoio financeiro ou presencial das associações nacionais da indústria de software no Brasil.

Embora o MIT enxergue uma enorme possibilidade de penetração dos produtos e serviços de softwares brasileiros no mercado internacional - e este é, para o Brasil e para os produtores de software, a relevância do estudo - lembra também que podemos ficar somente na possibilidade, repetindo um eterno "Brasil, o país do futuro" nesta área.

A janela de oportunidade está aí, com o MIT tirando, literalmente, da sombra a indústria de software brasileira; mas só o estudo, embora abra as portas para o conhecimento internacional de nossa produção, não vai criar uma indústria brasileira de software forte e internacional.

Somos nós, de governo, indústria e associações de classe que temos que dar as mãos e juntos aproveitar a porta aberta e construir esta nova riqueza.



Vanda Scartezini é assessora especial para a coordenação de TI e Comunicação na Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo; vice-presidente do GAC-ICANN - Comitê Governamental junto à gestão mundial de nomes e números da internet; formada em Engenheira Eletrônica, com especializações em gestão, e 33 anos de experiência profissional no Brasil e no exterior; atuou por mais de 25 anos em cargos de gerência e diretoria em empresas públicas e privadas; desde 1985 é sócia da empresa de Consultoria PÓLO Consultores Associados e PÓLO Informática Ltda e desde 1997 é professora de propriedade intelectual nos curso de MBA Telecomunicações & e-Business na Fundação Getúlio Vargas.
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