

Software nacional:
o Brasil pode ser a nova Índia?
• Marco Bravo
Muito se tem falado sobre a comparação entre Brasil e Índia no setor de software, mas uma análise estrutural mais profunda das características destes dois mercados ressalta diferenças importantes nas competências e vocações de cada um dos países neste setor de alta tecnologia.
Diversas empresas multinacionais continuam definindo rankings para concentração de seus investimentos em desenvolvimento de software - seja em centros de pesquisa e desenvolvimento, seja em centros de produção de software offshore. Dentre os principais fatores que têm sido considerados para seleção de centro para desenvolvimento estão:
- Qualidade e tradição
- Disciplina do profissional
- Idioma nativo
- Tamanho do mercado local
- Características culturais
- Segurança
- Preço
- Infra-estrutura de telecomunicações
- Qualidade da formação profissional e universidades locais
- Alinhamento de fuso horário e proximidade com os principais mercados
- Riscos geo-políticos
Em geral a Índia continua sendo a opção preferencial ao serem levados em contas todos os fatores impactantes para condições adequadas de produção de software como porém o Brasil já aparece como segunda opção em algumas destas análises seguido por China e México.
Seja qual for a análise que se faça é importante, antes de tudo, uma verificação dos nossos pontos fortes e fracos para que então definamos nossa vocação, onde seremos competitivos, criando barreiras competitivas para os concorrentes internacionais, e desta forma nos concentrarmos e incentivarmos as iniciativas orientadas à nossa vocação como país. Este estudo mostra que fortes diferenças existem entre Brasil e Índia que devem ser consideradas.
Em primeiro lugar, o Brasil possui um mercado interno significativamente maior que o indiano. A maior parte do software produzido na Índia é destinado ao mercado externo, enquanto no Brasil o consumo interno de software é extremamente grande, uma vez que existe de fato um conjunto de empresas e instituições nacionais demandantes de tecnologia. Se por um lado isto é um indicador positivo para o país, talvez seja a razão pela qual o foco de expansão internacional da indústria nacional de software seja menos incentivada: existe mercado aqui mesmo - não é à toa que importamos valores significativos em software anualmente a ponto de um desequilíbrio significativo em nossa balança comercial.
Além disso, as louváveis iniciativas do governo federal nos últimos anos de transparência da administração pública através do e-Gov utilizaram software como agente de modernização da máquina estatal. Projetos de modernização do desenvolvimento em uma série de empresas estatais vem ocorrendo cada vez com maior freqüência em empresas como o Serpro, Banco Central, Caixa Econômica, Banco do Brasil, entre outras. Cada uma destas empresas entende que software é um fator crítico de sucesso para a disponibilização de serviços adequados ao cidadão e a comunidade empresarial brasileira. Muito ainda resta a fazer nos níveis estadual e municipal.
Em segundo lugar, merecem atenção as necessidades específicas da indústria nacional. Enquanto que em vários países os sistemas de administração pública, tributária, previdenciária e de pessoal podem ser compartilhados devido à simplicidade das regras locais, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer nestas reformas a fim de que o software produzido por aqui possa com pequenas modificações ocupar lugar significativo no mercado internacional. Se por um lado nossas características legais protegem de certa forma a indústria nacional, elas dificultam a inserção e aproveitamento do que fazemos aqui no mercado mundial.
Nesse sentido, existe um paradoxo, pois as oportunidades para software embarcado em escala mundial são muitas vezes maiores por independerem de características locais de administração. Grande parte do software das aeronaves produzidas no Brasil pela Embraer ainda é produzido no exterior, onde países como Israel detém a vocação neste tipo de aplicativo. Reconhecendo a importância da detenção desta tecnologia a Embraer em conjunto com o ITA vem buscando a formação de profissionais especializados neste tipo de software.
Mas talvez o elemento que será essencial para distinção da indústria nacional seja a capacidade criativa do brasileiro, que contrasta com a disciplina do indiano. Talvez este seja nosso maior desafio: não ser uma Índia, mas ser um centro de produção de software com a qualidade indiana, mantendo a criatividade brasileira. Um excelente indicador da capacidade criativa nacional, ainda que estranho, é o fato de alguns dos maiores hackers mundiais serem brasileiros. Por que será?
Será, então, que nossa vocação deva ser a de produção em larga escala em fábricas de sofware, como o faz a Índia? Milhares de pessoas programando sem parar... Ou será que assim estaríamos desperdiçando nosso maior ativo intelectual: a criatividade na criação de soluções? A indústria de software avançou nos últimos anos para permitir que em breve não falemos mais em fábricas, mas sim em montadoras e projetistas (como já fazemos na indústria automobilística) de software. Algo que trará um valor agregado muito maior e neste cenário, por que não utilizar as fábricas da Índia e da China como produtoras de peças para nossas soluções?
Seja qual for nosso caminho, uma coisa é certa, consistência será necessária. Foi ela que construiu ao longo de quarenta anos uma indústria forte de software na Índia. E isso talvez seja o que mais tem faltado aos nossos programas de promoção desta indústria.


• Marco Bravo é diretor geral para América Latina da Rational Software, líder mundial no fornecimento de soluções para desenvolvimento, implantação e qualidade de software.
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