
A transição da tv -
analógica para digital
• Salomão Wajnberg
Freqüentemente, os dirigentes de organizações reclamam que as suas falhas decorreram de problemas e de razões fora de seu controle, como as condições econômicas gerais, a intransigências de seus parceiros comerciais, competição desleal, polarização ou fraqueza dos reguladores, ou mesmo os engenheiros!
A experiência mostra que poucos admitem publicamente, mesmo que parcialmente, a responsabilidade nas suas falhas, mesmo após elas serem de conhecimento público.
O Brasil está se preparando para introduzir a tv digital. Para tal é necessário um período de transição em que as transmissões de tvs analógicas e digitais sejam transmitidas simultaneamente até a sua maturação técnica e econômica da segunda e a conseqüente desativação das primeiras.
O caminho pelo qual a tv terrestre digital é implementada em diferentes países pode variar por inúmeras razões:
Por ser o continente que abriga a maior parte dos países que já operam a tv digital há anos, acumulando vivências e práticas de vital importância para o Brasil; os países da Europa constituem para nós uma fonte inesgotável de experiência na implantação e transição da tv analógica para a digital.
Os requisitos para o estabelecimento de uma infra-estrutura de transmissão variam dramaticamente entre os países europeus.
Assim, uma completa cobertura da Dinamarca, ou Bélgica pode ser obtida com uma relativa e barata rede constituída de poucos transmissores terrestres digitais. Por outro lado, uma completa cobertura terrestre da Noruega, França, ou Rússia pode ser muito mais cara e talvez impraticável.
Um outro fator é a disponibilidade de espectro. Como a maioria dos países na Europa tem fronteira com muitos outros países, o uso do espectro em áreas fronteiriças é severamente restrito pela necessidade de se evitar interferência mútua.
Por lado, outros países como a Espanha e o Reino Unido se beneficiam por estarem nas bordas da Europa e, portanto, o uso do espectro tem menor restrições.
Conseqüentemente, na Espanha foi possível oferecer 11 multiplexes de tv digital terrestre em parte porque algumas partes do espectro de VHF estava sem utilização.
No Reino Unido só foi possível após muito esforço introduzir seis multiplexes no espectro, tal era seu intensivo uso pelos serviços de tv analógica. E mesmo assim com uma potência de 20 DB abaixo, para evitar interferir nas tvs analógicas enquanto ela não é extinta. Em muitos outros países, é muito difícil oferecer mais de dois ou quatro multiplexes, pelo menos, até o serviço analógico ser extinto.
Os países também diferem em termos de seu cenário competitivo. Mais de 90% das residências na Bélgica e na Holanda são conectados a serviços de tv a cabo, ao mesmo tempo seu uso é mínimo em países como a França e Itália.
A tv paga a cabo e satélite tem sido bem sucedida no Reino Unido, ao passo que o público Germânico demonstra pouco entusiasmo por ela, principalmente porque cerca de 90% das residências da Alemanha recebem 30, ou mais serviços de TV por satélite ou cabo gratuitos.
A realidade é que as condições que permitirão um país alcançar sucesso na tv digital não se aplicam necessariamente em outros países.
A despeito dessas diferenças nacionais é óbvio que você pode aprender mais da falhas alheias do que de seus sucessos, que evidentemente são histórias que enfatizam seus aspectos positivos, minimizando os negativos.
Assim, uma rápida visão superficial pode dar a impressão que a tv digital vem tendo alguns problemas em sua transição no sentido de substituir a tv analógica. Em muitos casos, como na Espanha e Suécia, eles têm sido mais comerciais do que técnicos.
No Reino Unido, problemas técnicos advindo de uma transmissão digital 20 DB abaixo da nominal foram em parte responsáveis pelo colapso da emissora ITV-Digital. Porém, considerando os problemas comerciais, que afligiram a ITV Digital, decorrente da cobrança de seus programas concorrendo com a formidável base instalada da TV paga, seria ridículo atribuir aos problemas técnicos a razão desta falha nos negócios.
Os Estados Unidos cujo mercado de tv paga por cabo ou satélite atende a 85% dos telespectadores, após implantar os seus sistemas de tv digital terrestre - para atender os restantes -15%, descobriu que mobilidade e flexibilidade dos sistemas são importantes para atender outras formas de mercado, e está introduzindo agora modificações profundas em seu sistema.
Freqüentemente broadcasters perguntam que lições podem ser aprendidas com as experiências de implantação da tv digital no mundo, especialmente no Reino Unido, agora que a transmissão digital gratuita está se levantando como a fênix das cinzas da ITV Digital. Os EUA estão implementando seu sistema, mas ainda não passou pela prova operacional no mercado; ou o Japão, que deve iniciar as suas transmissões digitais comerciais no final deste ano
A resposta é a de sempre: não há uma receita universal que garanta o sucesso da tv digital em diferentes países. Mesmo assim, seria uma tolice ignorar os sucessos e as falhas da tv digital nos países que nos precederam e assumir sozinhos os altos riscos decorrentes de fatores não debugados por mercados com anos de operação comercial prática.


• Salomão Wajnberg, formado em engenheiro eletrônico e de telecomunicações pela Escola Nacional de Engenharia, em 1962, é Presidente da Associação Brasileira de Telecomunicações (TELECOM), vice-presidente do Sindicato da Indústria Eletrônica do Rio de Janeiro, membro do Conselho Diretor da FUCAPI (Manaus) e presidente do Sindimest - Sindicato das Empresas de Operação e Instalação e Manutenção de Redes e Sistemas de Telecomunicações do Rio de Janeiro.
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