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 HOME TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO30/09/2003

Panorama da TI

Sergio Sampaio Spinola

Em um ano marcado por grandes incertezas e intensas mudanças, ou expectativas de mudanças, não surpreendeu a relativa paralisia que tomou o mercado de TI este ano, principalmente no setor privado. O setor público, embora sempre sofra com a transição de governos, tradicionalmente mantém um cronograma de aquisições mais previsível e obediência a orçamentos formais. Por esse motivo podemos dizer que o setor público foi bem mais generoso que o setor privado em termos de aquisições este ano.

Diante de um panorama tão turbulento, devido à grande transição de poder que ocorreu no país, o site AliceRamos.com é um verdadeiro sobrevivente. Quem sobreviveu a 2003, ainda mais quem depende do mercado privado, é porque demonstrou uma estrutura resistente a qualquer intempérie. Mas este é o mercado brasileiro, sempre ciclo-tímico, do qual podemos esperar ao certo as turbulências, mas a transição de governo que ocorreu recentemente não explica tudo.

Um outro fator complicador para o setor de TI foi a acomodação e reestruturação que vêm sendo verificadas há algum tempo. Um desses fenômenos é a inexorável onda do outsourcing. As grandes companhias brasileiras e as multinacionais sejam em nível global ou nacional, decidiram entregar seus departamentos de informática, ou parte deles, ou a parte WAN para os grandes outsourcers, muitos deles empresas de telefonia, como a Telefonica, Telemar, Primesys (Portugal Telecom), Embratel, British Telecom, ou então para gigantes como a Siemens, IBM, entre outros. Em meio a esse processo, poucas aquisições foram realizadas nos departamentos de TI destas empresas.

Acrescentemos a isso o movimento de aquisições bancárias e registraremos mais uma paralisia naqueles bancos que porventura viriam a ser adquiridos. Em artigos recentes viemos discutindo a qualidade e a validade destes processos de outsourcing, e o fato é que vieram para ficar. A grande dúvida reside nos processos de modernização dessas estruturas, pois já conhecemos algumas histórias de horror, mas que não podem ainda configurar uma tendência em curto prazo. Se houver alguma coisa fundamentalmente errada nesses processos, sentiremos os seus efeitos somente após dois ou três anos. Poderíamos citar o setor elétrico, outrora grande comprador, temporariamente falido, mas o noticiário fala por si.

Um fato curioso na comparação entre o setor privado e o público é a diferença de apetite em termos de aquisição por equipamentos do tipo backbone gigabit nas empresas públicas este ano, algo que tem sido relegado em segundo plano nas empresas privadas. Enquanto vemos uma grande estatal adquirir centenas de portas de switches gigabit, vemos uma empresa do setor de energia esticar a corda para prolongar a vida útil dos seus hubs de 10Mbps ligados a alguns switches de 100Mbps, alguns dos quais comprados por catálogos. A disparidade entre o setor público e privado neste ano de 2003 realmente foi marcante.

Há pouco tempo atrás era o setor privado que demonstrava toda a sua pujança através dos ASPs, uma idéia que esbarrou na resistência cultural. A indecisão sobre os caminhos a tomar e a brutal queda dos investimentos no país, associados a uma verdadeira recessão, forçaram o contingenciamento de verbas e assim vimos as compras concentradas nos grandes bancos e nas telcos, ainda que em menor escala.

Para 2004 podemos apostar, no segmento relativo ao setor privado, em QoS, controle de banda, Wi-Fi segura, esta sim uma grande meta, e nos dispositivos de segurança em formato de appliances, deixando de ser sistemas sob a plataforma PC, à semelhança dos roteadores, que deixaram a sua antiga plataforma PC,vindo posteriormente a ganhar a forma definitiva appliances.

Grandes projetos de VoIP deverão ser deslanchados, sobretudo no mercado público, e esperamos que no setor privado deixe de ser uma aplicação marginal, tornando-se uma solução séria de telefonia, notadamente quanto à interligação de filiais. O uso da VPN seja na forma de serviços oferecidos pelas operadoras, seja como na implantação interna é uma tendência para uso em larga escala. Uma nova geração de dispositivos permite a implantação de VPNs a um custo baixo e gerenciamento efetivo e barato. Não podemos esquecer que a disponibilidade de serviços como o Speedy e Velox empresarial tornam o emprego da VPN ainda mais atraente.

A segunda metade de 2003 tem sido pródiga em lançamentos de produtos e tecnologias de VoIP, controle de banda, firewalls, novos switches gigabit, com uma drástica redução de custos e uma otimização que viabilizam a popularização de tecnologias que antes estavam relegadas às prateleiras, seja pelo custo, seja pela falta de confiabilidade.

Com relação ao uso da WAN, os clientes hoje exigem um nível de gerenciamento que vá além de um gráfico geral de uso em MRTG. Isso não satisfaz mais e poucos irão se contentar com provedores de telecomunicações que oferecem uma gerência pró-forma, com o objetivo de tapear o cliente, apenas para dizer que têm uma gerência. Os clientes hoje se encontram muito bem informados e parece pouco provável que venham a se contentar com soluções do tipo meia-sola que pouco ou nenhum controle ofereçam. Eles se contentarão no mínimo com auto-provisionamento, gerenciamento de banda por aplicação, e relatórios de uso na camada 7, por aplicação, usuário, servidor, aplicação e rede.

A disponibilidade do gigabit a um custo muito mais baixo; novos balanceadores de firewall e servidores; switches fast-ethernet cada vez mais baratos; toda essa nova parafernália colocará em xeque a aparente vantagem de se manter em operação redes completamente obsoletas, verdadeiras bombas-relógio prontas para explodir, ou implodir.

Em função de tantas novidades na forma de produtos mais rápidos, funcionais, inteligentes e eficientes, aliando-se a uma provável recuperação da economia brasileira em 2004, somos levados a acreditar que teremos um próspero 2004 para a TI, sobretudo no setor privado. No setor público, sob a alavanca de iniciativas governamentais que visam elevar a arrecadação ao nível municipal, estadual e federal, somos forçados a admitir que tais necessidades prescindirão de mais e melhores redes e sistemas.

No caso das prefeituras especificamente, aquelas que desejarem sobreviver terão que contar com um sistema de arrecadação de IPTU eficiente. São mais e mais redes e sistemas, sem os quais será impossível a sobrevivência dos municípios, dada a clara tendência da redução do bolo repartido pela união com os municípios. Todos os fatores parecem apontar para um ano vindouro, que pode começar agora mesmo, muito mais próspero do que temos esperado nos últimos tempos e, afinal, quem roeu só osso até agora merece um pouco deste filé.



Sergio Sampaio Spinola é diretor comercial da SAGA, atuando há 16 anos no mercado de integração de redes locais, com foco em novas tecnologias. Engenheiro Eletrônico, formado pela PUC-RJ.
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