AliceRamos.com


COLOCANDO OS PINGOS NOS IS
 Alice Ramos 
TI NEWS
 Elisabeth Gomes, Eduardo Lapa e Fabio Rios 
MARKET RESEARCH
 Ana Cláudia Bacellar 
TELE PONTO COM
 Fernando Neto Botelho 
CONTRAPONTO
 Sergio Spinola 
INCLUSÃO & CIDADES DIGITAIS
 Francisco Moreira de Meneses 
TICIDADÃ
 Luiz Sergio Lindenberg Nacinovic 
OPINIÃO
 Da redação 
INFO CENTER
 Jeferson Fued Nacif 





 HOME TICIDADÃ 31/01/2007

WEB 2.0: Rumo à Democracia Virtual?

Tereza Porto

Apesar de estar experimentando hoje o que talvez seja o ápice de sua fama, o termo Web 2.0 já não é novidade para muitos de nós. A origem da expressão remonta ao ano de 2004, quando representantes da editora O’Reilly e da promotora de eventos MediaLive realizaram uma sessão de brainstorming para conceber um congresso sobre Internet. Naquela oportunidade, Dale Dougherty, vice-presidente da O’Reilly, teria manifestado pela primeira vez a idéia da Web 2.0. A conferência – realizada em outubro daquele mesmo ano – foi um grande sucesso, que se repetiu nas edições seguintes, em 2005 e 2006. O grande acontecimento, entretanto, ficou por conta do advento do nome Web 2.0, que roubou a cena e já aparece mais de 100 milhões de vezes no Google.

Mesmo estando tão em voga no momento, pode haver quem não saiba, ao certo, o que vem a ser essa tal de Web 2.0 e, por isso, cabe aqui uma breve definição. Comumente chamada de segunda fase ou geração da Internet, a Web 2.0 consiste basicamente num novo paradigma de comunicação e de produção de conteúdo na grande rede, onde o conceito de troca de informações e de colaboração dos internautas é reforçado, tornando o ambiente online mais dinâmico. Em outras palavras, é um modelo que confere maior autonomia aos usuários, os quais passam a gerar, alterar e publicar, eles próprios, os conteúdos de determinados sites, interagindo entre si para o aprimoramento e para a criação de novos portais e serviços virtuais.

Nessa via de mão-dupla, o internauta deixa de ser passivo diante da web e começa a contribuir com o compartilhamento de informações, produzindo conhecimento, elemento absolutamente estratégico no mundo contemporâneo. É o que a jornalista Ana Redig, primeira webmaster do sexo feminino no Brasil, define como “inteligência coletiva”: “(...) a Web 2.0 é a interação entre seres humanos com o objetivo de somar [através da Internet] o que se sabe com o que se deseja saber. Nesta conta um tanto louca, o resultado é a multiplicação dos saberes. Parece mágica, mas é inteligência coletiva”. (1)

Dentre as ferramentas de Web 2.0 que possibilitam essa colaboração intelectual, as mais usadas e mais conhecidas atualmente são as wikis, páginas comunitárias na Internet que podem ser alteradas por todos os usuários que têm direitos de acesso, constituindo uma maneira fácil de trocar idéias dentro de determinado grupo; os blogs, sites de baixo custo para publicação de conteúdos na web, disponíveis para milhões de usuários; e os leitores de RSS (really simple syndication ou “distribuição realmente simples”), programas que reúnem os textos de nossos sites preferidos em uma única tela e nos avisam quando novidades são publicadas na Internet, também chamados de agregadores de notícias.

Outras ferramentas tipicamente Web 2.0 não ficam para trás em termos de utilização e popularidade. Home-pages mais relacionadas a entretenimento, como os sites de compartilhamento de vídeos (YouTube), de fotos (Flickr.com) e de músicas (Napster), além das polêmicas redes sociais orgânicas, tais como Orkut e My Space, dentre outras, viraram uma verdadeira febre entre internautas de todas as idades, interessados em participar ativamente na formulação e na disponibilização de material online, sempre de forma colaborativa.

Além da forte interatividade, outros elementos caracterizam a Web 2.0, como a oferta de serviços virtuais, na maioria das vezes interligados, e a utilização da Internet como plataforma, onde rodam verdadeiros sites “aplicativos”, com editores de texto, planilhas e programas de correio eletrônico que simplesmente substituem o desktop do usuário, algo inimaginável há alguns poucos anos.
Dessa forma, as funcionalidades das homepages tornaram-se muito mais poderosas, lembrando a sofisticação dos softwares e dispensando – em parte – o famigerado disco rígido, agora limitado ao suporte do browser e do sistema operacional.

Para criar esses aplicativos e serviços interativos, os desenvolvedores da segunda geração da Internet têm utilizado de forma ampla o protocolo Ajax (abreviação de “JavaScript e XML assíncrono”), tecnologia que abriu as portas para que novos programas pudessem ser executados na web da mesma maneira que rodavam em nossos computadores pessoais, ou de forma ainda melhor, já que dispensam instalação, backups, não apresentam bugs e não são infectados por vírus. Graças ao Ajax, o foco da Internet pôde sair da informação e passar à interação, transição que representou um ganho significativo em termos de construção de conhecimento.

A despeito de tantas evidências acerca da relevância das mudanças e dos benefícios que vieram a reboque do surgimento da Web 2.0, há quem diga que a segunda fase da world wide web não passa de um grande golpe de marketing, já que, em princípio, a interatividade sempre esteve presente no mundo digital, não havendo, portanto, motivos reais para tanta euforia em torno desse assunto.
Seguindo essa linha de raciocínio, a Web 2.0 teria apenas reforçado uma característica da Internet, numa tendência mais do que natural. No entanto, ainda que encaremos a Web 2.0 como uma evolução da grande rede nascida em 1995, há que se reconhecer os impactos gerados por esse novo modelo de comunicação e de produção de conteúdo online na vida dos usuários, impactos esses que já começam a alcançar as empresas e que muito provavelmente produzirão reflexos também no âmbito das administrações públicas.

No contexto dos governos, aliás, a Web 2.0 tende a gerar uma verdadeira revolução em termos de relacionamento com a população e vice-versa. Se hoje em dia algumas iniciativas da chamada “democracia participativa” já são uma realidade, como é o caso do orçamento participativo – praticado com êxito nas cidades brasileiras de Recife e Porto Alegre, por exemplo –, a expectativa é de que, com a segunda geração da Internet, passemos a uma “democracia virtual”, talvez nunca antes imaginada. Isso significa que saímos do primeiro estágio da democracia, representado basicamente pelo sufrágio universal; passamos pela fase participativa, onde, além de votar nos nossos representantes políticos, podemos opinar acerca de determinadas decisões e ações do governo; e nos encaminhamos para um terceiro nível democrático, no qual essa participação poderá ser exercida remotamente, através da web.

O leitor já imaginou se, em vez de escolhermos os representantes que votarão as leis, pudéssemos votar, nós mesmos, diretamente na lei, sem intermediários? E tudo isso de forma simples, sem burocracia, utilizando somente a Internet? Não, não é uma utopia, em absoluto. Pelo contrário, é uma possibilidade cada vez mais viável depois do nascimento da Web 2.0. Obviamente, essa possibilidade está atrelada à condição sine qua non de universalização do acesso à web em banda larga.
Essa é, entretanto, uma área em que temos conseguido avançar de forma paulatina, apesar de todas as dificuldades. A universalização está na ordem do dia das diferentes esferas de governo brasileiras, sendo objeto das mais diversas iniciativas. Independentemente de quanto tempo ainda falte para se tornar uma realidade, esse é um assunto que podemos dizer estar encaminhado. Além disso, a tendência natural é de que a Internet siga o mesmo caminho da TV, hoje acessível a aproximadamente 97% da população do Brasil.

A revolução no relacionamento do governo com o cidadão, ao nível de uma democracia virtual, carece também de uma profunda mudança cultural, que certamente demorará muitos e muitos anos para acontecer de fato. O que não representa, necessariamente, a inviabilidade de sua concretização. Por enquanto, a Web 2.0 está sendo responsável por pequenas modificações no governo eletrônico G2C (“government to citizen” ou “governo-cidadão”). Dentre outras coisas, a interatividade e o foco nos serviços online disponibilizados para a população têm sido priorizados nesse tipo de comunicação, bem ao gosto da nova geração da Internet.

Saindo do âmbito governamental e assumindo o ponto de vista do cidadão, foco desta coluna, a Web 2.0 reveste-se de um enorme potencial inclusivo. Com a criação do HD virtual, por exemplo, a possibilidade de manter documentos e planilhas pessoais arquivados em meio digital foi estendida a todo e qualquer usuário, mesmo àqueles que não possuem computador. Basta acessar a Internet a partir do micro da casa de um amigo, de uma lan house ou de um telecentro público e pronto, lá está o seu “desktop”. E se os aplicativos estão online, então até mesmo os gastos com licenças de softwares são reduzidos, tornando a informática ainda mais acessível à população de menor poder aquisitivo.

Várias outras possibilidades oferecidas pela segunda geração da world wide web, tanto para os cidadãos quanto para os governos e empresas, poderiam ser vislumbradas nesse momento. E já o são, de alguma forma, à medida em que conceitos bem mais avançados, como o da chamada Web Semântica, são estudados por profissionais em diversas organizações e já colocados em prática, de modo ainda preliminar, em sites acadêmicos. Ela representaria a evolução natural da Internet para sua terceira geração, da seguinte forma: a partir do uso intensivo de metadados (dados sobre outros dados) e da aplicação de linguagens específicas aliadas à tecnologia de domínios ou ontologias, a Web Semântica daria significado semântico ao conteúdo das páginas existentes no mundo virtual, criando um ambiente onde agentes de software (máquinas) e usuários trabalhem de forma cooperativa. Em linhas gerais, os computadores ganhariam a capacidade de interpretar dados, simplificando a pesquisa e os serviços para atender às demandas dos usuários.

Em 2004, quando estes estudos já estavam razoavelmente difundidos – viram como a suposta e popularizada “chegada avassaladora” da web 2.0, em 2006, tinha mesmo uma certa embalagem de marketing bem executado? – calculava-se que o número de novas páginas criadas viria a crescer 50% a cada ano, que apenas 20% delas estariam acessíveis e somente 62% apresentariam conteúdo novo, tornando o recurso de uma interpretação semântica de tudo o que há disponível na rede algo completamente imprescindível. Até hoje, alguns dos principais problemas da Internet tem a ver com falta de precisão das ferramentas de busca de informação, baseadas em palavras-chave incapazes de oferecer a contextualização necessária para que o conteúdo possa ser não apenas “lido”, mas processado pela máquina.
Além disso, o grau de recuperação e a precisão dos atuais sistemas é bastante limitado, enquanto os conteúdos de páginas diferentes não se comunicam entre si – um grande entrave para ações transversais de governo eletrônico nas três esferas administrativas, por exemplo.

Exatamente para resolver a questão é que se pensou nesta modalidade de representação formal, precisa e não-ambígua do conteúdo que é a Web Semântica, cujas linguagens oficiais são o XML (Extensive Markup Language), o RDF (Resource Description Framework) – modelo de metadados que liga os recursos disponíveis na web – e o OWL (Ontology Web Language) – linguagem de representação de ontologias –, dos quais muitos também já ouviram falar.

Não há dúvidas, portanto, de que uma verdadeira “Revolução Industrial” da Internet, se já não é real, está bem próxima, carregando consigo uma sucessão bem ligeira de “gerações” para as quais é preciso ter olhos e mentes abertas.

(1)  “Web 2.0 tem um estilo. Mas não é forma, é conteúdo”, de Ana Redig, publicado em 11/08/2006 – disponível em  Webinsider




Tereza Cristina Porto Xavier é analista de sistemas formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com especialização em Banco de Dados em Ambiente Cliente / Servidor pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Após atuar na iniciativa privada, entre 1995 e 1998, participou do projeto de informatização do Ministério Público do Rio de Janeiro.

Atualmente, ocupa o cargo de Secretária de Educação do Estado do Rio de Janeiro, foi presidente do Proderj, onde era responsável por diversos projetos de grande importância para o governo e a população fluminenses, como a Infovia.RJ e o Programa Internet Comunitária.

Exerceu dois mandatos à frente da Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Tecnologia da Informação e Comunicação (ABEP – 2005 e 2006), atuando inclusive como coordenadora de seu Comitê de Inclusão Digital, com o objetivo de disseminar o ensino de informática e o uso da Internet, promovendo a universalização do acesso do cidadão à tecnologia. Integra ainda o Conselho Empresarial de Telecomunicações e Tecnologia da Informação da Associação Comercial do Rio de Janeiro e o grupo executivo que organiza a rede temática Rio Digital, cujo objetivo é promover parcerias entre órgãos governamentais, universidades, centros de pesquisa e empresas visando à implementação de soluções de software e à geração de conteúdos para TV Digital no estado do Rio de Janeiro. Tereza assina a coluna “TICidadã” quinzenalmente no site AliceRamos.com, abordando o impacto das inovações tecnológicas na gestão governamental e sua tradução na vida do cidadão.

Clique aqui para mandar uma mensagem para esta coluna



Clique aqui e envie esta coluna por e-mail

HOMEQuem somosFale conoscoNewsletterAnuncie

 

 

INCLUSÃO & CIDADES DIGITAIS
A Inclusão Digital em 2010
A Internet é algo surpreendente quando se conhece realidades como as que conheci nesse final de ano, ao visitar comunidades isoladas do Estado do Pará.
Por Francisco Moreira de Meneses

 

MARKET RESEARCH
Os líderes na berlinda
A liderança é um tema discutido há muito tempo. Na verdade, quando temos alguém a nos inspirar e admirar, a despeito das cobranças, nós desempenhamos nossas atividades de forma muito mais eficaz. Isto acontece com você?
Por Ana Cláudia Bacellar




Copyright © 2002/2009 AliceRamos.com    Todos os direitos reservados.    Para reprodução total ou parcial deste site é necessária autorização prévia.